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18 de maio de 2016 - Os Serradores de Madeira

Na  antiga Bela Vista de Tatuí existiu muita madeira,  é o que contavam os moradores mais velhos. A mata era densa, fechada e dificultava a passagem que era por trilhas e picadas que na época formavam os caminhos. O clima característico da região, subtropical úmido, era equilibrado pela variada e extensa vegetação.

 

As chamadas “madeiras de lei”, próprias da “mata atlântica”, existiam em abundância. Eram  lenhos duros e rijos, próprios para construções e resistentes às intempéries. Peroba, cabriúva, cedro, ipê,  guarantã, jacarandá, canela eram, então, cortadas e usadas a vontade. Na época, o uso de madeira era indiscriminado, embora o grande consumo se tornasse pequeno em função da reserva. Não havia nenhuma preocupação com a possível escassez futura.  Não se pensava em reflorestamento. Usava-se para tudo: lenha, carvão, construção de casas, engenhos, mangueiras, estábulos, paiol, cercas, paliçadas, etc.

 

O corte seguido aumentava cada vez mais. Havendo necessidade, as frondosas árvores de madeira nobre eram, simplesmente, escolhidas e derrubadas. No início eram preparadas e serradas no próprio local e, mais tarde, passaram a ser levadas às serrarias puxadas por burros,  juntas de  bois, carros e carretas.  A primeira serraria na Bela Vista pertenceu ao coronel Chico Vieira (Tatuí), lá pelos idos de 1897, mais ou menos. Ficava à margem do rio Feio, na saída para Bofete nas terras que pertenciam à dona Silvéria Angélica da Fonseca Bueno, sogra do capitão Miranda, a antiga chácara do Valêncio. O caminho era péssimo e foi até preciso construir uma ponte para a travessia, por onde passavam os carros de boi e carretas, carregadas de toras. A serraria durou até meados dos anos 20, passando, antes, por diversos donos, como a Família Leal (Tatuí) e os Irmão Abud (árabes). Depois, com o  crescimento do comércio de madeira no município, houve a mudança do meio de transporte e, então, já se viam caminhões com cargas pesadas.

 

Parte da madeira cortada era consumida por aqui, mas a maioria seguia para Tatuí, principalmente, e outras cidades vizinhas onde existiam grandes serrarias. A “serragem ou serração” sempre foi manual até a instalação da primeira serraria, mas o costume antigo nunca foi abandonado na zona rural. Com a desativação das máquinas, o método primitivo cresceu ainda mais e, então, apareceram os serradores de madeira, trabalhadores autônomos, que executavam o corte, lavramento e a “serra” de acordo com o que era contratado. Era um trabalho pesado, desgastante e perigoso. Exigia muita força e os instrumentos, as chamadas serras de dupla mão, eram sempre manuseadas por dois operadores. A tora era colocada numa plataforma, que na realidade eram dois cavaletes, fixos com escoras. Era feita, então, a marcação para serrar e, com muita habilidade e precisão, tiravam todos os tipos de madeira:  pranchas, vigotas, caibros, ripas, etc.

 

No começo, as ferramentas eram precárias. Para o corte, utilizavam o machado e a trançadeira. Logo, em seguida, a  tora era preparada para ser serrada ou lavrada nas 4 faces, por meio de machado. Depois era levantada na plataforma e marcada por meio de barbantes anilados para a serração. Antes, usavam  “o serrotão”, que com o tempo foi substituído pela “serra portuguesa”, a ferramenta “moderna” que revolucionou esse tipo de trabalho. Com certeza foi trazida por algum imigrante português e muitos comentavam que se tratava do saudoso Manoel Alves Antunes, o Manélito,  homem íntegro e que se tornou  destacando comerciante na comunidade.

 

O corte, o transporte, a preparação e a serração da madeira sempre foram atividades de risco e inúmeros acidentes ocorreram envolvendo os trabalhadores. Podemos imaginar o que pode ter acontecido em termos de mutilações, fraturas, deformações, etc., ocorrências violentas que, com o tempo, foram simplesmente esquecidas. Dois casos merecem citação que comprovam a precariedade da  segurança: 1) O carreiro Clemêncio Pinto da Silva, nos anos 20, sofreu um grave acidente, quando trazia toras de madeira para a serraria; aconteceu que,  enquanto passava pela  ponte, um dos bois  prendeu uma pata num dos vãos e, ao tentar salvá-lo, ele teve uma das pernas imprensada e graves machucaduras com seqüelas que marcaram  para o resto da vida. O fato foi contado pelo filho Onozor Pinto da Silva. 2) Outro caso, relatado pelo saudoso Lazinho do Valencio:  o serrador Nhô Gáudio, pai de dona Helena Fogaça, serrava madeira  na  praça da matriz, numa plataforma erguida defronte à casa (atual) do dentista João Francisco Rosa, quando, de forma despercebida, uma menina de mais ou menos 10 anos de idade subiu no cavalete para brincar, quando a tora se movimentou e a atingiu, matando-a quase que imediatamente.  Aconteceu mais ou menos em 1915/20. A consternação foi geral.

 

Como esses abnegados trabalhadores fazem parte da rica história de nossa gente, tentamos  resgatar  os nomes (não a totalidade, o que seria impossível ), mas nos surpreendeu a forma com que foram respeitosamente lembrados e enalttecidos. Alguns nomes: Toninho Correa, Nhô Gáudio, José Correa, Clídio, Manélito, Eduardo Marques, Martinho Pires, Amantino ( pai do Toniquinho), João Rosa Preto, Nico Messias, Joaquim Miranda, Nato dos Santos, Mingo dos Santos, Camargo, Horácio do Bino, Lazinho Cristóvão, Rodolfo Luzia, Lindolfo Luzia, Raul Luzia, Juvenal Cardoso e irmãos, Ortílio, Venturinha Bernardo, Paulino, Antenógenes, Otonielzão, Ezequiel, Vitu, Carlino Ferreiro, etc.

 

Foto: “The Wood Sawyers”, de Jean-Francois Millet em https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Jean-Fran%C3%A7ois_Millet_(II)   

 

 

Júlio Manoel Domingues

 

 

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